terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Luciano Tasso


Luciano Tasso nasceu em 1974 na cidade de Ribeirão Preto, interior paulista. Formou-se em Comunicação Social pela Escola de Comunicação e Artes da USP e trabalhou durante nove anos como diretor de arte para agências de publicidade em São Paulo e no exterior. Desde 2007 atua como ilustrador para livros, revistas e Histórias em Quadrinhos. Em 2008 venceu o Salão Internacional de Desenho para a Imprensa de Porto Alegre na categoria ilustração editorial. Já ilustrou várias obras, dentre elas: “Os 12 Trabalhos de Hércules”, “Artes do Caipora em Cordel” e “A Saga de Beowulf” escritos por Marco Haurélio; “Como Sou” do autor Thiago de Mello; “O que é Cultura Popular” de Moreira de Acopiara e “Lua Estrela Baião” de Assis Ângelo. (Informações fornecidas pelo autor)



 Foto: Clarice P. Chieppe

ECL- Bertold Brecht- Como se deu sua aproximação com a arte de ilustrar?

LUCIANO TASSO - Desenhar sempre foi minha brincadeira preferida. Desde criança dedicava horas do dia tentando reproduzir os personagens que assistia na televisão. Na adolescência, entre as caricaturas dos professores e dos amigos da classe, sonhava com o estereótipo do artista que se embrenhava na vida, sofria pela sua criação; num mundo glamoroso e boêmio... Nem de longe passava pela minha cabeça que isso pudesse se transformar, algum dia, em profissão: arte não punha feijão na panela!
Foi mais tarde, quando tive oportunidade de escolher uma boa faculdade que optei por me graduar em publicidade. Não sabia direito o que se fazia nessa área de atuação, mas imaginava que a função de "diretor de arte" tivesse algo relacionado à ilustração. Foi um engano. Na prática, esse cargo é responsável pela parte visual da comunicação; seu exercício treina o olhar para a estética visual, dá noções de equilíbrio e composição, mas é bem diferente de uma abordagem artística.
Comecei, então, a realizar algumas tentativas de ilustrar para a publicidade. Com o surgimento da internet as chances aumentaram, pois era mais prático resolver a comunicação usando ilustrações. Neste período, também aprendi a trabalhar com animação de personagens e vinhetas, o que me garantiu posteriormente a participação na produção de um longa-metragem infantil.
Graças a um amigo meu de infância, o Daniel Bueno, que se tornou um grande ilustrador de livros, pude perceber que trabalhar para o mercado editorial dava maior liberdade artística. Decidi, então, investir nessa área e tive a oportunidade de dividir o estúdio com o Maurício Negro, um grande profissional com quem aprendi muito a ilustração e o mercado de livros.
Não foi fácil, mas aos poucos consegui fazer um portfólio com alguns livros e vários projetos pessoais. Contei com a ajuda da Dulce Seabra, da editora Global para fazer uma apresentação do meu trabalho na editora Cortez e fui muito bem recebido pelo Amir Piedade, que gostou do meu trabalho. A partir de então, consegui manter uma produção contínua e hoje, posso dizer que minha brincadeira preferida, desde a infância é que garante o feijão na mesa.


ECL- Bertold Brecht - Muitas das suas ilustrações estão em obras que abarcam a cultura popular no Brasil. Como você avalia a inserção desses trabalhos no atual "mercado" editorial brasileiro?

LUCIANO TASSO - O mercado literário brasileiro, ainda é muito insipiente. Observo o crescimento de atividades que buscam valorizar nossa cultura escrita, como feiras literárias, ações do governo e das associações para representar o Brasil no exterior, autores contemporãneos e consagrados que ganham traduções em diversos países além de produções independentes, como vemos acontecer com a poesia de Cordel, mas isso ainda está longe de configurar um panorama favorável. O grande peso dessa relação ainda está na questão econômica e na educação. Temos pouco incentivo à leitura no ensino de base e isso prejudica a formação de um público leitor. Por outro lado, o livro ainda é um objeto caro, o que faz com que as editoras privilegiem publicações focadas na certeza da venda, com autores conhecidos ou best-sellers que chegam do exterior com todo o arsenal de marketing para sua venda.
Esse estrangulamento mercadológico dificulta a aposta na diversificação dos temas.
Por outro lado, temos um material farto de nossa história que está sendo resgatado, seja por incentivos do governo, pesquisas, associações, gente que realmente se importa com a nossa cultura. Falta maior interesse em fazer com que os eucadores e o mercado consigam achar uma forma de reutilizar e divulgar esses conhecimentos.
Algumas editoras estão empenhadas nesse direcionamento. É o caso da Global, onde tive a primeira oportunidade de ilustrar poemas relacionados à cultura popular no livro "Meus Romances de Cordel" de Marco Haurélio. São iniciativas valorosas, pois acredito que a aproximação com a nossa realidade traz subsídios para compreender nossa história e a consequência disso é seguramente uma vida melhor.
De tempos em tempos, presencio o fenômeno de ver muitas pessoas lendo títulos estrangeiros - os chamados "sucesso de vendas" - seja nos ônibus ou nos metrôs de São Paulo, o que mostra a miopia de muitas editoras e donos de livrarias que afirmam que brasileiro não lê. Talvez seja o caso de divulgar, com a mesma força, romances nacionais e da cultura popular que tenho certeza, são muito mais coloridos!


ECL Bertold Brecht - O livro Como Sou do poeta amazonense Thiago de Mello reúne poemas especialmente para o público jovem. Conte nos sobre o processo de ilustração dessa obra.

LUCIANO TASSO - Ilustrar poesia é sempre uma tarefa difícil, pelo menos para mim. Em todos os projetos, eu procuro entender o universo do autor naquele referido texto e busco refleti-lo nas ilustrações, mantendo sempre o cuidado para simplesmente não "traduzir" o que está escrito.
Já ouvi algumas pessoas do meio se apropriarem do termo intertextualidade, para definir o recurso de criar uma narrativa paralela ao texto fazendo uso de imagens. É um pouco isso que tento fazer. No caso do livro "Como Sou", que não tinha uma narrativa contínua, acabei sintetizando os capítulos em ilustrações. Tive como inspiração um fio condutor: a água, o rio, a chuva. O resultado foi que cada arte acabou sendo um poema visual composto por elementos colhidos do texto.


ECL - Bertold Brecht - O artista maltês Joe Sacco teve grande reconhecimento por seu trabalho que engloba história em quadrinhos e jornalismo retratando principalmente a situação do povo palestino. Existe hoje uma preocupação em retratar a realidade por meio da ilustração?

LUCIANO TASSO - A ilustração, como forma de expressão artística, sempre foi preocupada em retratar alguma realidade, seja ela pessoal ou coletiva. o que Joe Sacco fez, através de seu olhar jornalístico, foi dar voz a um drama vivido por um povo que simplesmente é ignorada pela grande mídia e, de forma esplêndida utilizou a linguagem dos quadrinhos para humanizar e aproximar sua mensagem para diferentes tipos de leitores.
Mas esse tipo de abordagem é rara. O que vejo muito hoje, na maioria dos casos, é a retratação de uma realidade concernente com o tempo que vivemos, ou seja, uma realidade difusa, intangível, onde as preocupações locais se confundem com as globais. É uma fase artística que eu brinco com os amigos chamando de cyber - barroco : uma mistura de diversas influências em composições extremamente elaboradas que têm uma cara ao mesmo tempo desterritorializada, mas com estilos muitos pessoais.
Como todas as fases artísticas, essa também será transitória, no entanto, ela influencia fortemente não só a ilustração, mas todo tipo de manifestação visual. O caso mais evidente é o grafite - quando vejo as pinturas de personagens amarelados e subnutridos, excesso de caveiras, ou tribais neo-alguma-coisa, construo um imaginário de arte totalmente desvinculado de qualquer relação política mais aprofundada. Não sei se há empenho em se politizar ou retratar a realidade do seu entorno, mas também não acho que isso seja obrigatório. Cada um usa a voz e os recursos que tem para se expressar artisticamente. Sinto apenas um certo desânimo por existirem poucos trabalhos como os do Joe Sacco.


Luciano Tasso nos presenteou com uma caricatura de Bertold Brecht:


Abraços,
Juliana Gobbe

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Antonio Barreto

O baiano Antonio Barreto é considerado atualmente um dos maiores nomes do cordel no Brasil. Preocupado com as causas de seu tempo, o autor não poupa críticas aos políticos brasileiros , bem como, artistas e programas da grande mídia. O cordel Big Brother Brasil: um programa imbecil  teve grande repercussão no país. Em entrevista ao ECL Bertold Brecht o cordelista nos contou sobre seus projetos.
                                
                 
Arquivo pessoal de Antonio Barreto

ECL- De que forma, projetos, tais como: “Leituras públicas” podem contribuir para a aproximação dos leitores ao universo do cordel?
ANTONIO BARRETO - Pois é, a tarefa de formar leitores não é só responsabilidade da escola, mas de todos nós: família, mídia, poetas, formadores de opinião em geral. E Leituras Públicas, aqui em Salvador, é um projeto da Fundação Pedro Calmon, cujo objetivo é estimular a difusão do livro, o gosto pela leitura e o incentivo à produção cultural. São encontros mensais com autores locais em que se promove o diálogo do leitor com texto. Eu fui um dos convidados este ano (2013) e ali tive a oportunidade de mostrar um pouco de minha produção com o lançamento de uma coletânea que reúne 11 folhetos de cordel, intitulada “Big Brother Brasil: um programa imbecil e outros cordéis”, que faz parte de um outro projeto da Fundação Pedro Calmon.

ECL-O cordel Big Brother Brasil: um programa imbecil espalhou-se rapidamente por todo o país. Conte-nos como foi o processo de criação daquilo que ficou conhecido como uma valiosa crítica ao entretenimento da grande mídia?
ANTONIO BARRETO - O processo de criação do cordel do BBB se deu de uma forma curiosa! Eu estava num barzinho com amigos poetas dialogando sobre os rumos da poesia aqui em nossa terra. De repente, uma voz do “além” tocou a minha consciência dizendo: “Big brother Brasil – Um programa imbecil” !  De pronto fiz a anotação do título do referido cordel em um guardanapo, mas a construção do texto só veio a acontecer depois de alguns meses. Após a conclusão, enviei o texto para um casal amigo em BH (Paulo e Nívea) e eles divulgaram na Internet. A partir daí foi um sucesso que não teve fim. Até hoje recebo congratulações de um mundaréu de pessoas de todos os recantos do planeta azul !

ECL-Em tempos em que “a arte pela arte” domina os meios de comunicação numa profusão ilimitada de espetacularização. Como você avalia o papel do artista popular?
ANTONIO BARRETO - A verdadeira arte precisa estar engajada com o social. E o papel do artista popular é estar presente em todos os espaços da mídia, mas visando sempre uma contribuição maior para embelezar a vida. No caso do cordelista, o ideal seria uma criação artística visando a formação de um leitor crítico que seja capaz de interagir habilmente no seio da sociedade. Não vale a pena escrever cordel por escrever, por curiosidade; o  verdadeiro cordelista precisa se empenhar bastante, ter persistência e dialogar com o seu leitor, tendo a consciência de  que a nossa produção deve estar seriamente relacionada com o contexto social, cultural, político e econômico do qual estamos inseridos. De modo que fico entristecido ao ver tanta banalização da arte no momento atual.

ECL-Como os professores do Brasil podem usar o cordel como um “instrumento pedagógico”?
ANTONIO BARRETO - Da mesma forma que utilizamos outros gêneros textuais, a exemplo do conto, crônica, poesia, romance, letra de música etc. O ideal seria o MEC estabelecer uma lei que oficializasse o ensino do cordel na grade curricular do ensino médio e fundamental. E não é fácil aproximar o aluno do livro, já que os instrumentos tecnológicos atuais são extremamente sedutores. A literatura de cordel indiscutivelmente é um gênero textual muito significativo, sedutor, carregado de ludicidade, que tem o poder de desenvolver nos alunos o senso crítico, o gosto pela leitura, o raciocínio lógico. Aqui em Salvador e em todo o estado da Bahia as escolas, tanto particulares quanto públicas, seguem empenhadas na utilização do cordel como um instrumento pedagógico capaz de nos auxiliar no processo de ensino aprendizagem. Eu, por exemplo, venho há 10 anos realizando oficinas de cordel em todo o estado, experiência esta carregada de  êxito.

ECL- Quais são os próximos projetos do artista Antonio Barreto?
ANTONIO BARRETO - Olha, Juliana, tenho um mundo todo de projetos, mas no momento estou podendo falar  apenas de dois!  O primeiro vai acontecer em 2014, que é a publicação de um livro em que reunirei 21 cordéis de minha autoria relacionados à educação, ou seja, cordéis que foram feitos a partir da experiência prática com os meus alunos. O segundo é para 2015, que é uma abordagem sobre os períodos literários ocorridos no Brasil. Inclusive já tenho prontos: “Aula de Quinhentismo em cordel”, “Aula de Barroco em cordel” e “Aula de Arcadismo em cordel” - esses dois últimos serão lançados agora em novembro, na Bienal 2013, aqui em Salvador. No mais seguirei fazendo minhas oficinas de cordel, palestras e recitais. Ah sim, acabei de fazer um cordel esta semana ,mas estou com receio de publicar ! O título é “A Fazenda da Record – um programa de dar dó.” Quer dizer, eu ando meio receoso com relação a essa crítica social que venho fazendo através do cordel. O fato é que tanto o cordel do Pedro Bial quanto o de Caetano Veloso me deram muita dor de cabeça! Agora sinto uma necessidade enorme de fazer silêncio e seguir com a minha produção voltada para a educação, ecologia e cultura popular. A Bahia continua conservadora, talvez o Brasil por inteiro. Veja que os poetas Gregório de Matos e Cuíca de Santo Amaro foram condenados pela sociedade por terem a verve crítica. Dizem muito por aí que é proibido proibir – mas tenho dúvidas disso! Ainda bem que não sou famoso e ninguém vai se preocupar em me biografar ! Passei a praticar meditação e começo a descobrir o quanto somos limitados, idiotas e pequenos diante desse universo complexo chamado vida humana...
 Trecho do cordel Big Brother Brasil: um programa imbecil:

Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão "fuleiro"
Produzido pela rede Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, "zé-ninguém"
Um escravo da ilusão.





Trecho do cordel: Esse cara sou eu: Renan Calheiros!

- Deitadinho numa rede
 Como um bom samaritano
O Renan vai criar boi
No sertão alagoano
E doar filé mignon
Porque é um cabra humano!

-Ficha suja no Brasil

Não paga pelo que fez...
A justiça silencia,
O cabra faz outra vez...
Mas o pobre logo é preso
Roubando um pinto pedrês!

- A vitória do Renan

Me deixou desnorteado...
Todo o "acerto" em Brasília
Foi deveras camuflado:
Uma eleição secreta
Pra eleger um condenado!



Alguns trabalhos de Antonio Barreto estão em:

http://barretocordel.wordpress.com/

Abraços,
Juliana Gobbe




quarta-feira, 30 de outubro de 2013

ELIZANDRA SOUZA



Elizandra Souza é Poeta, Jornalista, Editora da Agenda Cultural da Periferia na Ação Educativa, locutora da Rádio Comunitária Heliópolis FM. Co-organizadora da Antologia Pretextos de Mulheres Negras com Carmen Faustino e textos de 20 poetisas negras. Autora do livro de poesias Águas da Cabaça, totalmente produzido por jovens mulheres negras com ilustrações de Salamanda Gonçalves (BA) e Renata Felinto (SP), lançado em outubro de 2012. Co-autora do livro de poesias Punga com Akins Kintê (Edições Toró, 2007) e participante  em antologias literárias como:Cadernos Negros, Negrafias, entre outras. Colaboradora da Revista O Menelick 2º Ato -MandelaCrew –Comunicação e Fotografia. Idealizadora do evento Mjiba em Ação – Comemoração ao Dia da Mulher Negra (25 de julho). Editora do Fanzine Mjiba (2001-2005).

A escritora nos concedeu a seguinte entrevista:



ECL- A jornalista Mel Adún faz a seguinte afirmação no prefácio do seu último livro: “A poesia de Elizandra Souza dança ao ritmo do hip-hop, dialoga com a juventude negra e desobedece ao racismo, quando se faz voz de si mesma e das suas. Trazendo a tona nossas dores, alegrias e anseios, do micro ao macro, da perifa de São Paulo para o mundo; sem perder uma identidade preta, feminina e uterina”. Qual é o papel dos poetas na sociedade atual?

ELIZANDRA SOUZA- O papel do poeta é o mesmo de todos os cidadãos, mas a arte consegue sensibilizar e tratar de temáticas sejam elas prazerosas ou de mal-estar, temáticas que a sociedade ou tenta esconder, que é o caso do racismo e da invisibilidade da população negra, no meu caso, a minha poesia fala constantemente da mulher negra, que esta na base da pirâmide social. Mulheres negras que carregam na pele o racismo e a desigualdade social e sustentam toda a sociedade. As minhas poesias trazem essa ancestralidade para que as mulheres negras possam se ver refletidas nos espelhos e com sua autoestima conseguir combater o racismo, se perceberem belas e protagonistas. O plano é audacioso, mas é um passo a passo diariamente.

ECL- Ao longo do livro Águas da Cabaça o leitor encontra vários excertos de textos de algumas escritoras, tais como: J. Nozipo Maraire, Maria Tereza, Zora Neale Hurston, entre outras. Como surgiu a ideia de homenageá-las?

ELIZANDRA SOUZA- Na verdade não é nem uma intenção de homenagem, mas uma forma de reverenciar autoras negras que são minhas leituras bases para me perceber como mulher negra, pois o racismo é tão escroto, que não nos vemos bonitas e inteligentes. E essas leituras me alimentam para protagonizar a minha arte e foi uma forma de apresenta-las para os leitores, pois temos dificuldades de encontrar referências bibliográficas dessas escritoras, outro dia ministrei um bate papo com professores e na roda de apresentação solicitei que falassem seus nomes e dissessem o nome de um escritor ou escritora negra, foi um silêncio constrangedor, até que alguém já na metade dos participantes, lembrou de Machado de Assis, aí foi outro constrangimento, pois a maioria nem sabia que o nosso principal escritor brasileiro é negro...Imagine se eu perguntasse só escritoras negras, lembrando que estou falando de professores que são as nossas fontes de conhecimento. Foi por essa provocação que citei trechos de livros e poesias de mulheres negras de várias partes do Brasil e do mundo como: Moçambique e Estados Unidos.

ECL- A poesia Gameleira foi escrita em homenagem ao escritor Luís Gama. Sabe-se que o autor com a publicação de Primeiras Trovas Burlescas de Getulino ridicularizou a aristocracia e os poderosos de sua época. Na sua concepção, qual foi a maior contribuição dada pelo escritor baiano à nossa sociedade?

ELIZANDRA SOUZA- Luís Gama é uma referência, uma personalidade negra que traz várias simbologias: poeta, advogado abolicionista, filho de Luiza Mahin, uma das lideranças mulheres da Revolta dos Malês. Ele deveria ser mais conhecido pela nossa sociedade, mas poucas pessoas conhecem. Ele é muito importante como outros que são inviabilizados pelo racismo. 

ECL- O sarau Cooperifa é uma das principais atividades de manifestação da cultura popular da cidade de São Paulo. Como se estrutura esses encontros? Todos podem participar?

ELIZANDRA SOUZA- O Sarau da Cooperifa completou nesse mês de outubro, 12 anos de atividades,que  acontecem todas as quartas-feiras no Bar do Zé Batidão na Zona de Sul da Periferia de São Paulo. Esporadicamente realiza-se outras atividades como Chuva de Livros, Sarau nas Escolas e Bibliotecas, Poesia no Ar e Mostra Cultural da Cooperifa. O sarau tem microfone aberto e todas as pessoas são bem-vindas.

ECL- Quais são os escritores preferidos da (leitora) Elizandra Souza?

ELIZANDRA SOUZA- As cinco autoras citadas em Águas da Cabaça:
- Conceição Evaristo
- Pauline Chiziane
- Maria Tereza
- Zora N. Hurston
- J. Nozipo Maraire
Demais:
- Elisa Lucinda
- Cristiane Sobral
- Carolina Maria de Jesus
- Mel Adún
- Cadernos Negros
- Cuti
- Nei Lopes
- José Carlos Limeira
- Fábio Mandingo
- Não negros (as) : 
- Eduardo Galeano
-Clarissa Estes Pinkola
-Mario Quintana
-Manoel de Barros
-Carlos Drummond de Andrade
-Guimarães Rosa
-Cora Coralina
-Clarisse Lispector

Aproveitamos para convidá-los para o lançamento da Antologia poética: Pretextos de Mulheres Negras organizada por Carmen Faustino e Elizandra Souza.



 Abraços,
Juliana Gobbe

domingo, 20 de outubro de 2013

Kiwi Companhia de Teatro

No início do mês de outubro a Kiwi Companhia de Teatro inaugurou sua nova sede em São Paulo. O evento foi marcado pelo que há de melhor no teatro épico brasileiro, destacando as parcerias com outros grupos. A inauguração também contou com o lançamento do caderno de estudos sobre arte e política: CONTRAPELO e o lançamento da revista Merlino Presente! (Coletivo Merlino).













Abraços,
Juliana Gobbe

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Lá Detrás Daquela Serra.


Nosso querido amigo Marco Haurélio convida as crianças e adultos de São Paulo para uma tarde de quadras, cantigas e muitas brincadeiras embaladas por seu mais recente livro: Lá Detrás Daquela Serra.

Abraços,
Juliana Gobbe

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Rosalia de Castro

Aos camponeses humildes da Galiza, região pobre da Espanha, um pouco da poesia de Rosalia de Castro (1837-1885) que juntamente com um grupo de intelectuais chamado "Rexurdimento" trouxe à tona o galego onde encontramos as origens da  Língua Portuguesa (brasileira)  cujo o uso foi durante muito tempo discriminado e estigmatizado por ser a língua das camadas desfavorecidas daquela região.



Meses do inverno frios
qu'eu amo a todo amar,
meses dos fartos rios
y o doce amor do lar.

Meses das tempestades,
imaxen da delor,
que afrixe as mocedades
y as vidas corta en frol.

Chegade, e trás d'outono
que as follas fai caer,
nelas deixá que o sono
eu durma do non ser.

E cando o sol fermoso
d'abril torne a sorrir,
que alume o meu repouso.

Rosalia de Castro

delor - dor
afrixe-aflige
frol-flor

Abraços,
Juliana Gobbe

Fonte: Gramática Pedagógica do Português Brasileiro (Marcos Bagno).

domingo, 25 de agosto de 2013

Lançamento de livro

Ontem foi um dia de festa para o cordel brasileiro. Marco Haurélio lançou em São Paulo seu mais recente livro: Artes do Caipora em Cordel. O evento foi uma celebração da cultura popular lá representada por cantores e escritores.









Nossa dica de leitura:



Abraços,
Juliana Gobbe

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Brecht



Há 57 anos morria Bertold Brecht.

Quero que vocês saibam que me atormenta uma insáciável curiosidade pelo que diz respeito ao homem; nunca me cansarei de vê-lo e ouvi-lo. Me interessa a forma como os homens se tratam entre si; me interessam suas inimizades e amizades, o modo como vendem cebolas, como planejam suas campanhas bélicas, como decidem seus casamentos; me interessa o modo como confeccionam suas roupas de lã, como colocam em circulação bilhetes falsificados, como cozinham seu alimento, como observam o céu; me interessa o modo como se enganam uns aos outros, como se elegem, como transmitem seus ensinamentos, como se exploram, como se julgam, como se mutilam, como se apóiam, como se reúnem, como se associam, como fazem intrigas. Quero saber como chegam a concretizar todos esses empreendimentos e quero conhecer o resultado de todos eles.
Bertold Brecht

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Amado Jorge

Não nasci para famoso nem para ilustre, não me meço com tais medidas, nunca me senti escritor importante, grande homem: apenas escritor e homem. Menino grapiúna, cidadão da cidade pobre da Bahia, onde quer que esteja não passo de simples brasileiro andando na rua, vivendo. Nasci empelicado, a vida foi pródiga para comigo, deu-me mais do que pedi e mereci. Não quero erguer um monumento nem posar para a História cavalgando a glória. Que glória? Puf! Quero apenas contar algumas coisas, umas divertidas, outras melancólicas, iguais à vida. A vida, ai, quão breve navegação de cabotagem!
Jorge Amado.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Marco Haurélio

O escritor Marco Haurélio nasceu em Riacho de Santana na Bahia. Conviveu desde muito jovem com as manifestações da cultura popular nordestina. Através de uma sensibilidade ímpar registrou a literatura oral do sertão baiano.
É autor de uma produção poética elogiada por crítica e leitores. Seu livro mais recente destina-se aos educadores do Brasil: Literatura de Cordel – Do sertão à sala de aula.
Na penúltima sextilha de O romance do Príncipe do Reino do Limo Verde, lemos:

Por isso é que Marco Haurélio
Não se rende nem se vende,
Luta com as armas que tem:
Ora ataca, ora defende.
Algumas vezes ensina
E, ensinando, ele aprende.

O escritor baiano concedeu uma entrevista exclusiva ao nosso blog. Os amantes da cultura popular agradecem esse olhar identificador de uma prática social longeva que ora se manifesta nas expressões espontâneas do povo brasileiro.

                              

ECL- Frequentemente se estabelece alguma confusão quando se fala em cordel, embolada e repente. Quais seriam as diferenças entre estas três manifestações?

MARCO HAURÉLIO- Bem, para começo de conversa, o cordel pertence ao âmbito da literatura, ao passo que o repente e a embolada são manifestações da oralidade. Embora o cordel se vincule, como toda a poesia que chamo de bárdica, à oralidade, se diferencia do repente e, mais ainda da embolada, por sua função. O repente está mais próximo à tradição medieval dos menestréis, com a viola substituindo a bandurra e outros elementos de cordas, e a embolada, com seus instrumentos de percussão, se aproximam mais das tradições vindas da África. Embora, num país como o Brasil, em que a pluralidade cultural salta aos olhos, estas fronteiras não podem ser delimitadas com precisão.

ECL-  No cerne da cultura popular costuma se afirmar que Leandro Gomes de Barros é o “pai” da literatura de cordel no Brasil. Conte nos sobre os feitos deste exímio cordelista.

MARCO HAURÉLIO- Leandro Gomes de Barros é o pai da literatura de cordel como a conhecemos hoje. O que não significa que ele tenha sido o primeiro a escrever cordel no Brasil. Houve outros antes dele, como João Santana de Maria, o Santaninha, citado por Sílvio Romero. Mas é a partir dele, Leandro, dos temas que desenvolveu e das causas que abraçou, que o cordel se consolidou. É esta semente, cultivada por mais de um século, por poetas como José Camelo de Melo, Joaquim Batista de Sena, Manoel Camilo dos Santos, Delarme Monteiro, Manoel D’Almeida Filho, e, atualmente, por Rouxinol do Rinaré, Arievaldo Viana, Rafael Neto e Klévisson Viana, para ficar em alguns, que Leandro plantou com o zelo dos que enxergam além. Por exemplo, são dele a Peleja de Manoel Riachão com o Diabo, base de todas as pelejas em que um cantador tem o demônio como antagonista; a História da Donzela Teodora, versão em cordel de um livro do povo que aproxima uma figura arquetípica, a donzela sábia das Mil e uma noites, ao universo de disputas verbais dos cantadores nordestinos; a Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, obra que melhor aproveita um episódio do ciclo carolíngio, mais presente na tradição das cavalhadas do que propriamente no cordel; e O cachorro dos mortos, talvez o melhor cordel dramático de todos os tempos.



ECL-  No seu livro Breve História Da Literatura De Cordel encontramos a seguinte passagem: “As narrativas populares, de fundo heroico, satírico ou religioso, impregnaram a obra dos grandes escritores da Idade Média e do Renascimento”. Quais são os autores mais importantes dessa época?

MARCO HAURÉLIO- São tantos, e quase todos bebiam na fonte da oralidade. Para ficar em alguns: Chaucer, autor dos Contos de Canteburry; Boccaccio, que com o Decameron, forneceu muitos temas à literatura picaresca; Rabelais, se insurgindo contra os modelos clássicos em seu Gargantua; e William Shakespeare, que foi buscar nas tradições populares de vários países a inspiração para sua obra imortal.


ECL-  No que diz respeito às capas dos folhetos, sabe-se que antigamente eram chamadas de “capas cegas”, ou seja, sem ilustrações. Com o passar do tempo desenhos e fotos ganharam espaço. Como a xilogravura insere se neste contexto?

MARCO HAURÉLIO- A primeira xilogravura apareceu, como fato isolado, em uma capa de um folheto de Francisco das Chagas Batista, datado de 1907. Na década de 1930, era usada em pequena escala, mas a preferência dos editores como João Martins de Athayde era pelo desenho. Com a venda do espólio de Athayde, paraibano que estabeleceu indústria gráfica no Recife e se tornou o maior editor  de cordel de todos os tempos, para o alagoano José Bernardo, que vivia em Juazeiro do Norte (CE), a xilogravura passou a ser usada com mais frequência. Juazeiro, como sabemos, é um centro religioso cuja vida cultural e social gira até hoje em torno da figura do Padre Cícero Romão Batista. Havia, e ainda há, na cidade muitos s que trabalhavam a madeira. Então, os clichês zincografados, com os quais Athayde trabalhava, já velhos e gastos foram substituídos por imagens talhadas na madeira por atesãos como Inocêncio da Costa Nick, Walderedo Gonçalves e Damásio Paulo da Silva. E também pelo genial Stênio Diniz, neto de José Bernardo. Paralelamente, na região de Caruaru (PE), cidade do agreste famosa por sua feira celebrizada por Luiz Gonzaga, nos versos de Onildo Almeida, os poetas desenvolveram um estilo mais simples, mas igualmente marcante. É o que o pesquisador Jeová Franklin de Queirós denomina “escola pernambucana”, que tem nomes como J. Borges, José Costa Leite e Jota Barros.



ECL-  Como você avalia o cordel na Literatura contemporânea? Os educadores podem de alguma forma contribuir para o fomento da cultura popular junto aos educandos?

MARCO HAURÉLIO- O cordel na atualidade está presente em duas frentes. Continua sendo vendido no meio tradicional, mesmo sem o vigor dos tempos áureos, em cidades como Juazeiro do Norte (CE), Bom Jesus da Lapa (BA), Canindé (CE), na Feira de São Cristóvão no Rio de Janeiro, no Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza e no Mercado Modelo, em Salvador. Poetas como o baiano Zeca Pereira ainda correm de cidade em cidade, com uma mala de folhetos, o que é louvável, pois alimenta a tradição itinerante do cordel. Por outro lado, principalmente a partir da mostra Cem Anos de Cordel, idealizada pelo jornalista Audálio Dantas, em 2001, que teve como cenário o SESC Pompeia em São Paulo, grandes editoras passaram a se interessar pelo gênero. A editora Hedra lançou, sob coordenação do saudoso pesquisador Joseph Luyten, a coleção Biblioteca de Cordel. Em 2007, a Nova Alexandria criou a coleção Clássicos em Cordel, sob minha coordenação, que já se aproxima dos vinte títulos e traz autores como João Gomes de Sá, Klévisson Viana, Moreira de Acopiara, Geraldo Amâncio Pereira, Varneci Nascimento, Rouxinol do Rinaré, entre outros. Discute-se se esse novo cordel é um híbrido ou somente a tradição atualizada. Mas o que chama a atenção é a vitalidade de um gênero que, por várias vezes, teve a morte anunciada por pesquisadores como Átila Almeida, mas soube se adaptar aos novos tempos e às demandas da contemporaneidade. Nesse contexto, o cordel chega à sala de aula. Os educadores podem — e devem — trabalhá-lo. Antes, porém, é preciso que pesquisem sua história e características, para não confundirem o gênero, que é o cordel, com o formato em que é publicado — predominantemente o folheto. Lamentavelmente, a maior parte dos textos da internet, a começar pelo verbete na Wikipédia, que traz uma espécie de linha evolutiva totalmente equivocada, misturando, de forma gratuita, vários gêneros da chamada poesia popular.



ECL-  Em que contexto se deu a criação da “Caravana do Cordel” em São Paulo?

MARCO HAURÉLIO- A Caravana do Cordel surgiu em 2009, mas foi gestada a partir de várias experiências dos poetas nordestinos residentes em São Paulo. A princípio, o nome Caravana do Cordel, sugestão minha, abarcava qualquer movimentação dos poetas, como, por exemplo, a presença da coletividade no lançamento de um livro. A ideia ganhou corpo como movimento, depois que um dos membros fundadores, o cearense Costa Senna, sugeriu aos responsáveis pelo Espaço Cineclubista da Baixa Augusta a realização de um encontro mensal de cordelistas. Assim, o evento passou a chamar-se também Caravana do Cordel, ampliando o conceito. Antes disso, a iniciativa pioneira de João Gomes de Sá, o Salão da Literatura de Cordel, realizado em Guarulhos, forneceu o modelo seguido pela Caravana, respeitando a característica e o potencial de cada membro. Depois, o evento tornou-se itinerante e viajou pelo interior de São Paulo e de Minas Gerais. Hoje, por conta da agenda de seus membros, as apresentações têm sido mais esparsas, mas o conceito permanece.

Dica de Leitura:


Literatura de Cordel - Do Sertão à sala de aula.
Editora Paulus

    
                                 

 Abraços,
Juliana Gobbe

domingo, 7 de julho de 2013

Férias.

Em agosto...confiram uma entrevista inédita com um expoente nas pesquisas sobre o cordel no Brasil: Marco Haurélio.

terça-feira, 28 de maio de 2013

INÁ CAMARGO COSTA

O dramaturgo e poeta alemão Bertold Brecht com uma inconfundível percepção do capitalismo escreveu em Histórias do sr. Keuner :

O sr. Keuner tinha pouco conhecimento dos homens. Ele dizia: “Conhecimento dos homens só é necessário quando há exploração. Pensar significa transformar. Quando penso em alguém eu o transformo, quase me parece que ele não é absolutamente como é, mas que passou a ser assim quando comecei a pensar sobre ele.

Em confluência com o pensamento brechtiano encontra-se  Iná Camargo Costa. (Professora aposentada do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia  Letras e Ciências Humanas FFLCH- USP). Com grande atuação no Brasil como pesquisadora, curadora e palestrante de muitos debates sobre a arte em seu viés social, a professora, estabeleceu desde sempre através de suas colocações um olhar crítico e lúcido sobre o teatro épico no Brasil e seus desdobramentos no séc 21.

 Em entrevista exclusiva para o Espaço de Criação Literária Bertold Brecht a autora de A Hora do Teatro Épico no Brasil (Graal) , Sinta o Drama (Vozes), Panorama do Rio Vermelho (Nankin) e Nem uma Lágrima (Expressão Popular e Nankin) fala sobre o pensamento dialético no teatro épico hoje, e, claro sobre: Brecht.


 ECL- O surgimento do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE) constituiu um marco importante no teatro brasileiro?

INÁ CAMARGO COSTA -Se entendermos por teatro brasileiro o teatro convencional, não constituiu marco nenhum, pois este nem tomou conhecimento do CPC. Mas se adotarmos o ponto de vista dos jovens artistas que se envolveram com a sua fundação (como Vianinha, Chico de Assis e João das Neves entre outros) e desenvolveram seu potencial artístico-político em suas atividades, podemos até mesmo dividir a história do teatro convencional em antes e depois do CPC. Basta lembrar que, depois de instaurada a ditadura e destruído o CPC em 1964, o melhor e mais importante teatro brasileiro foi um desenvolvimento de suas experiências, a começar pelo Show Opinião.

ECL - No prefácio do seu livro: A hora do teatro épico no Brasil o crítico literário Roberto Schwarz ressalta que: “Com o golpe de estado de 1964, a trajetória que acompanhamos ficou interrompida. Como era inevitável, o teatro em parte reagiu, em parte se ajustou, e em parte se ajustou reagindo”. Existe na contemporaneidade um pensamento dialético no teatro brasileiro?

INÁ CAMARGO COSTA - Preferindo falar do que conheço, acho que existem grupos teatrais que exercitam em cena um pensamento claramente pautado pela dialética. Vou me limitar a enumerar alguns dos que conheço melhor. No Rio de Janeiro existe a Companhia Ensaio Aberto; em Natal, o grupo Alfenins; em Porto Alegre, o grupo Ói nóis aqui Traveis, e em São Paulo são inúmeros: Folias d’Arte, Engenho Teatral, Companhia do Latão, Companhia do Feijão, Antropofágica, Ocamorana, Brava, Dolores – para me limitar a exemplos que me ocorrem sem precisar pensar muito.
Quanto à produção teórica, prefiro deixar para vocês a tarefa de identificar os nossos companheiros na academia, pois estou aposentada há exatos 10 anos e não sei o que anda acontecendo por lá. Mas para me limitar a referir amigos que militam no teatro, posso citar o Sérgio de Carvalho, que é da Companhia do Latão, o Márcio Marciano, do grupo Alfenins, Luiz Fernando Lobo da Ensaio Aberto, Márcio Boaro do Ocamorana, Moreira do Engenho, Zernesto e Pedro Pires do Feijão, Fábio e demais companheiros da Brava, Tiago da Antropofágica, Luciano do Dolores e assim por diante. Acho que, com esta enumeração que não é exaustiva, posso afirmar que existe, sim, um pensamento dialético no teatro brasileiro.

ECL - Na década de 60 as concepções artísticas oriundas do Agitprop aproximaram os atores brasileiros de uma visão mais politizada em detrimento de um posicionamento puramente esteticista. Qual é o papel desse movimento no século 21?

INÁ CAMARGO COSTA - Agitprop não é movimento cultural, mas ação política definida por um partido revolucionário. O agitprop histórico foi criado pelo partido de Lenin para desenvolver ações culturais com objetivos políticos no âmbito da cultura durante a guerra civil (1918-1920) e depois foi exportado para países como Alemanha, França e Estados Unidos. A questão esteticista nem se colocava pois, para os artistas revolucionários, a “arte pela arte” era o mesmo que “arte para o mercado”. Se o século 21 criar algum partido capaz de fazer uma revolução e de mobilizar artistas para a causa, seu papel será o mesmo: criar todas as modalidades de arte aptas para cultivar e disseminar o ponto de vista da revolução proletária no âmbito da cultura.

ECL - A perspectiva do “teatro de militância” numa atuação com forte viés social  pode, de certa forma, apontar um horizonte mais humanizador diante do ser humano diluído no pós-modernismo?

INÁ CAMARGO COSTA - Não tenho a menor dúvida em relação a isso. Basta pensar que o pós-modernismo é esteticismo de mercado cinicamente assumido. Todos sabemos que o mercado pode ser qualquer coisa, menos humanizador. Ao contrário: para além de o mercado se alimentar da mais-valia extraída dos trabalhadores, sua função é escamotear esta alienação (ou extorsão, ou açambarcamento) da mais-valia, cultivando o fetichismo da mercadoria. O pós-modernismo está totalmente mergulhado neste fetichismo. Um “teatro de militância” que comece por denunciar esta situação seguramente pode apontar para um horizonte simplesmente humano. Não custa lembrar que uma das maneiras de definir o socialismo é a liquidação da sociedade de classes, na qual a maioria produz a mais valia que alimenta o parasitismo, a desumanidade e a barbárie da minoria.


ECL - Em seu livro mais recente: Nem uma lágrima, temos: “Depois de Brecht não há mais lugar para uma estética normativa no teatro". Qual é o legado que o dramaturgo alemão deixou para o ocidente?


INÀ CAMARGO COSTA - A geração de Brecht rompeu conscientemente com a estética normativa dos críticos convencionais ao praticar – com conhecimento de causa – o direito de trânsito por todas as formas culturais e gêneros literários, misturando o que bem entendesse. Estes artistas descobriram que a liberdade na arte deve ser exercida tanto no plano da escolha dos assuntos quanto no plano das formas e técnicas, sem aceitar ordens nem vetos de nenhuma instância que não fosse sua própria consciência artística e política. Para além de uma obra literária de amplo alcance – teatro, romance e poesia –, Brecht deixou inúmeros escritos teóricos que ajudam a entender a sua luta e a de todos os artistas do ocidente. Este é o legado pelo qual ele responde pessoalmente, mas há também o exemplo do artista que nunca se enganou com o canto de sereia do mercado, nem se curvou ao moralismo dos esteticistas que pregavam a renúncia aos meios de produção cultural controlados pelo inimigo. Pelo contrário, ele recomendava a luta pela socialização destes meios de produção também, entendendo que uma forma de travá-la dependia da atuação em seu interior, na condição de artista assalariado.

Dica de Leitura:


 Abraço,
Juliana Gobbe

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O Velho Graça por Dênis de Moraes.


O escritor russo Máximo Górki afirmou certa vez que a única coisa que transcende a existência do ser humano é a sua obra. Frase que valida a trajetória do brasileiro Graciliano Ramos. Em comum entre os dois autores temos a incompreensão por parte de muitos críticos, a existência tumultuada e dois livros autobiográficos que carregam o mesmo título: Infância.
Mas, o fato de maior importância que se alinha nos desvãos da história é que tanto em um como em outro, além do inquestionável talento, temos a luta que se trava pelo reverso daquilo que nos foi estabelecido.
Longe das amarras de um ufanismo desarrazoado é urgente reencontrar em Graciliano um Brasil que a cultura de massa insiste em jogar fora.
Nesses tempos de palavras mornas, fomentadas pela aclamação fácil e excessivamente mercadológica, Dênis de Moraes nos presenteia com a reedição da biografia: O velho Graça. Um momento de leitura substancial para os admiradores de um escritor singular na história da literatura brasileira.
Confiram a entrevista que Dênis de Moraes, considerado o melhor biógrafo de Graciliano Ramos, concedeu ao Espaço de Criação Literária Bertold Brecht.

                                                     Arquivo pessoal: Dênis de Moraes
 





ECL-Quais livros formaram o leitor Dênis de Moraes?

DÊNIS DE MORAES - Sou filho de um grande professor de literatura brasileira e portuguesa. Foi ele o meu mestre na formação do gosto literário e na paixão pela literatura como possibilidade de expressão e tradução da condição humana. E não é casual o fato de meus autores fundamentais serem compartilhados com meu saudoso pai. Graciliano Ramos (Vidas secasSão BernardoMemórias do cárcere), Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa e Clarice Lispector. 


ECL- Conte-nos sobre sua motivação em reeditar “ O velho Graça” vinte anos após a 1ª edição?

DÊNIS DE MORAES- O livro estava esgotado há vários anos, e considerei que os 120 anos de nascimento de Graciliano, completados em 27/10/2012, constituíam uma ocasião propícia para relançá-lo. Chamo a atenção para o fato de que introduzi acréscimos no texto original. Dois deles me parecem significativos. Consegui localizar e destacar as principais questões abordadas nas cinco entrevistas expressivas que Graciliano concedeu ao longo da vida. Ele era esquivo e costumava driblar o assédio de repórteres dizendo que não tinha nada de útil a dizer... Os jornalistas Francisco de Assis Barbosa, Homero Senna, Newton Rodrigues, João Condé e Joel Silveira, durante a década de 1940, conseguiram a proeza de dobrá-lo e obtiveram declarações interessantes sobre o seu processo de criação (reescrevia obsessivamente os textos e cortava o que chamava de “gorduras”, com uma régua guiando seu lápis implacável); o papel do escritor na sociedade (ressaltava que a literatura deve preservar sua autonomia frente à política, sem deixar de refleti-la); e suas preferências literárias. Outro acréscimo relevante foi a carta que Graciliano chegou a redigir e jamais enviou ao então presidente Getúlio Vargas, em 1938. Um desabafo sobre as dificuldades enfrentadas durante e depois do período da prisão (entre 3 de março de 1936 e 10 de janeiro de 1937). A carta, de uma lauda, era respeitosa, ainda que com algumas ironias, como, por exemplo, ao qualificar Vargas como “meu colega de profissão”, numa alusão ao ingresso do ditador na Academia Brasileira de Letras com apenas um livro de discursos.... É evidente que elegeu Vargas como destinatário numa tentativa de questionar o chefe do regime que o encarcerara sem processo ou culpa formada.
                                                

                                                                           Arquivo pessoal: Dênis de Moraes


ECL- No prefácio à 1ª edição de “O velho Graça”, Carlos Nélson Coutinho nos brinda com o seguinte excerto: “Vemos, por exemplo, como não bastou a Graciliano, para se tornar um excepcional escritor, a profunda e empática vivência com os problemas da sua região, do seu povo”. Qual é o legado que o escritor alagoano deixou ao Brasil?

DÊNIS DE MORAES- Poucos escritores de sua geração demonstraram tanto compromisso com o homem brasileiro como Graciliano. Ele fez de sua criação literária um instrumento de interpretação e reintervenção na realidade social e política do país, sempre com um olhar de compaixão para com os excluídos e os que sofrem com as explorações de qualquer natureza. Sua obra sempre se pôs ao lado do povo nordestino, buscando retratar seus problemas, carências, conflitos e anseios. Qual escritor foi capaz de recriar esteticamente o drama da seca, com tamanha verossimilhança e tanto sentimento de partilha e solidariedade, quanto o Graciliano de Vidas secas?  Por merecimento, é hoje um clássico universal. Isso se deve a seu compromisso inabalável com a condição humana. Sua obra, como poucas, reflete solidariedade e sensibilidade para com as aspirações, as vicissitudes e as expectativas dos homens na passagem pela Terra. Foi um dos escritores que demonstraram maior empenho em compreender as variações e as manifestações contraditórias e belas da alma humana. Está acima dos tempos históricos; comunica-se com todos os tempos, todos os contextos e todas as situações que envolvem o indivíduo e a coletividade em seus embates com as circunstâncias da vida.

ECL- Os literatos hoje perseguem em sua maioria, características técnicas se apropriando muitas vezes de um discurso puramente estético. Como você avalia o atual momento literário no nosso país?

DÊNIS DE MORAES- Vou responder à pergunta tentando imaginar o que Graciliano Ramos diria. Talvez dissesse que está na hora de reviver o realismo crítico, mais compromissado socialmente e capaz de se sensibilizar pelo destino do homem brasileiro, com suas aspirações, sofrimentos, inquietações e experiências. Com as exceções que merecem respeito e consideração, a literatura atual está comportada e resignada demais. Graciliano repetiria que é preciso torná-la mais instigante e crítica, porque, como ele ressaltava, “a arma do escritor é o lápis”.

ECL- Em 1.927, Graciliano foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios. Sabe-se também da inserção do autor no PCB. Até que ponto a veia política influenciou a produção literária?

DÊNIS DE MORAES-  De um lado, Graciliano sustentava que a literatura não pode ser reduzia à ideologia, pois a especificidade do trabalho criativo se sobrepõe às exigências políticas imediatas e aos fervores revolucionários. De outro lado, a política sempre o atraiu muito, desde o noticiário sobre a Revolução Russa de 1917, da qual se inteirou pela assinatura de jornais do Rio que chegavam de trem, com enorme atraso, a Palmeira dos Índios. Autodidata em idiomas desde a adolescência, ele conseguia ler textos de Marx e Lenin em francês, através  de encomendas pelo reembolso postal a livrarias cariocas que importavam títulos estrangeiros. Embora ainda não fosse comunista, logo se aproximou de ideias libertárias. A paixão política o fez aceitar a candidatura a prefeito de Palmeira dos Índios, depois de receber apelos de muitos frequentadores da sua loja de tecidos, que o viam como uma reserva moral e de honradez na cidade, e também em resposta aos boatos de que relutava disputar a Prefeitura com medo de perder. A sua administração ainda hoje é considerada uma referência de administração séria, honesta e  empreendedora. Combateu privilégios, acabou com a corrupção e o endividamento público, priorizou obras nos bairros pobres e na periferia, reformou escolas públicas, fez cumprir o Código de Posturas para frear a desordem urbana que imperava na cidade. E não nos esqueçamos que, de 1945 até a sua passagem, em 20/3/1953, foi militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Graciliano acreditava firmemente que o socialismo era o caminho para a justiça e a emancipação sociais. Sua militância se caracterizou por extrema lealdade à causa socialista e ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), no qual ingressou em 18 de agosto de 1945, a convite do então secretário-geral, Luiz Carlos Pretes. Mas é importante insistir que Graciliano não admitia a tutela ideológica sobre a criação literária. Ele entendia, lucidamente, que, por mais solidários que sejam às causas populares, escritores e artistas não podem sufocar suas inquietações, nem se conformar que o partidarismo lhes indique as ferramentas do ofício.

ECL- Discorra sobre “a dor e a delícia” de ser um dos grandes biógrafos de Graciliano no Brasil?

DÊNIS DE MORAES- Dor nenhuma, a não ser a dor que eu, Graciliano e todos os que lutamos por uma sociedade justa e igualitária sentimos diante de um mundo tão injusto e, como bem acentuava o mestre Milton Santos, perverso. Delícias múltiplas, como desvendar segredos e mistérios, saber mais do que está no livro, ter conhecido Heloísa de Medeiros Ramos (grande mulher e viúva do romancista) e me aconselhar com Graciliano sempre que tenho dúvidas e preciso que me digam que não posso transigir no que é essencial.




O Velho Graça
Autor: Dênis de Moraes
Boitempo Editorial




Abraços,
Juliana Gobbe